Páginas

sexta-feira, 26 de julho de 2013

a analista tirou uma semana de folga e eu estou aqui, morrendo. repensando e reavaliando cada uma das minhas decisões profissionais. sempre que as coisas desandam, isso acontece. eu estava feliz há pouco tempo, me lembro disso. do olho brilhando, dos perrengues todos, mas achando que eu estava fazendo algo de fato relevante.

eu nem consigo olhar na cara do chefo. ele também mal olha na minha, a gente se estranhou de vez. faltei trabalho porque não dormi direito, porque tem sido assim há semanas. eu sonho que estou fazendo algo e vou tomar esporro, ou que eu estou sendo perseguida. sempre trabalho. hoje, eu não consegui levantar da cama. estou aqui, pensando se não foi um grande erro lá em 2011 quando eu resolvi abandonar uma vida tranquila na firma colorida e ir ver outras coisas. eu só me ferro, desde então. tá bom que eu aprendi, e que cresci bla bla bla whiskas sachê. estou exausta. quero férias, e eu nunca tiro férias porque estou sempre trocando de trabalho. e gastando energia em conhecer as pessoas, aprender os processos, me estabilizar num novo ambiente. pra que? pra tudo dar errado 8 meses depois, e seu chefe começar a comer outra gerente, e dar pra ela atribuições que são suas, e deixar ela tornar sua vida um inferno. e aí dar aumento pra ela. 

eu ando tão enojada com os últimos acontecimentos da firma que fico pensando o que diabos eu estou fazendo ali. porque tudo está tão TÃO diferente de quando eu entrei, que eu nem reconheço mais nada. perdi amor pelos projetos. começo a questionar as minhas reais habilidades. um ano é o tranco que eu aguento, depois saio correndo e sem olhar para trás. essa minha facilidade em desistir das coisas, em não ficar pra ver os problemas sendo resolvidos. será que eles são? nunca fiquei pra ver. eu podia baixar o tom, e tirar atenção do que vai dentro da minha cabeça de vez em quando. ligar o automático, sei lá. será que é isso que eu preciso ter pra conseguir ficar mais tempo no mesmo lugar sem precisar sair correndo? vai que é uma fase. eu nunca descobri, eu nunca fiquei pra ver se de fato era. então nunca foi, né? 
já tem dias que as coisas estão iguais. desde aquela sexta feira, quando eu reclamei com o chefo da rainha de copas. e que ele disse que conversaria com ela. duvido que ele tenha. pelo contrário, ele PAROU de conversar foi comigo. bobinha eu de reclamar da namoradinha dele. de achar que havia, ali, um fiozinho que fosse de retidão. me ferro eu.

capa da invisibilidade desde então. ele fala comigo, muuuuuito de vez em quando. quando acontece, eu respondo. mas eu não procuro, eu mando um email ou outro, muito de vez em quando, e isso quando o assunto não pode mais esperar. se puder, o assunto espera.

eu fiquei aqui pensando que ele e o chefão podiam estar me evitando por causa daquela reunião maldita da segunda retrasada, quando os dois mudaram o direcionamento do projeto e apenas me comunicaram. acho que eles ficaram esperando que eu reagisse, que cobrasse deles alguma coisa. até porque a culpa do atraso, que era do chefo, veio toda pra mim. e desde então eu poderia, veja bem, trazer esse assunto à tona. sei lá. eu não vou fazer isso, já decidi. capa da invisibilidade. daí a rainha de copas me conta, do nada, que antes de me comunicar a decisão maldita, o chefão chamou ela na sala e perguntou o que ela achava. 

o que ELA achava. não o que eu acho, como se a decisão não fosse totalmente relacionada ao que eu sei melhor do que ela. não é ciume, veja bem. é me dar conta do circo todo, do espaço que ela ganhou com os dois, de conselheira mór dos dois bobalhões. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

toda uma baderna com as fontes do blog. eu posto com um app direto do celular (deosmelivre) abrir a janela do blogger dentro do escritório, sou gato escaldado, e aí vai tudo em times new roman. e aí de casa eu tento consertar e é aí mesmo que tudo ferra de vez. estamos lidando.

21h31

foi no sábado, o lance do bar. era aniversário de uma amiga querida, a menina de aracaju, lá dos tempos de firma colorida. bar a uma quadra de casa. peguei meu menino, meu casaco novo escândalo de pelúcia e fui.

bar pequeno e charmoso. uma quadra de casa. entrei, pedi bebidas sentei no bar, chocada com a rabada incrível que eles serviam em potinhos. sim. rabada. incrível.

no fundo do bar, um japonês, a cara do sean lennon. os amigos contavam a história do bar, que era de dois ex funcionários de wonderland, que se encheram da vida corporativa e foram viver o sonho. eu estava ali, bem no meio do sonho deles. lembrei que o menino japa, o menino japa que largou wonderland e abriu um bar, tinha, há muitos e muitos anos, se apaixonado por anne, numa crise dela com o então ex namorado. eu ainda morava no rio, sabia tudo dos dois. cheguei a torcer pelo menino, vejam só. não deu certo. ela não se apaixonou, a vida seguiu, caminhos diferentes, anos depois eu fui madrinha do casamento dela com o ex amigo ex chefe agora amigo de novo, mas assim com distanciamento.

fiquei pensando que se a vida tivesse seguido outro rumo, anne estaria ali, orgulhosa do menino dos drinks. eu nunca soube que ele parecia o sean lennon. sofri um tiquinho, de novo, a história dos dois não ter dado certo.

estou aqui pensando que a porra toda já se desgastou. segunda de manhã, o chefo dá oi e eu quero dizer tchau. não me importo mais com o projeto que fazia meu olho brilhar há um mês. acho que nada vai funcionar. que as pessoas são estragadas  o que vale, o que vale mesmo, é o salário gordinho no fim do mês. o mesmo salário que eu quero gastar, mas preciso economizar, VEJA BEM, porque sabe-se lá quanto tempo eu vou aguentar antes de lançar  noviça rebelde meme de facebook, com um foda-se esta merda e rodopios nas colinas, vestindo um vestido azul.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

eu recebi o email-esporro, li, tive raiva, acalmei, pedi que o cara de ti lesse, ensaiei uma resposta, e ele me pediu que deixasse ele responder.

deixei. ele respondeu. continuei relendo, ensaiei outra resposta. dando um chega pra lá. se o chefo não estiver confortável com a forma como o trabalho vem sendo feito, precisamos conversar e alinhar o que é esperado, bem como as opções que todos nós temos nesse momento.

todos nós.

encarei o email escrito sem coragem de apertar o send. reli o e-mail dele, pensei nos últimos dias, e o quanto vem sendo difícil pensar com clareza num ambiente em que um relacionamento tem dado o tom de todo o trabalho.

comecei a pensar no que eu considero importante. da minha carreira, do meu dia a dia, do trabalho que eu gosto de fazer. das pessoas que eu gosto que me rodeiem. pensei nas decisões que eu respeito, e nos comportamentos que eu recrimino.

sim. é juízo de valor. nesse caso, por pior que soe dizer isso, é. eu não topo trabalhar em um ambiente assim, cheio de sustos, com decisões que eu questiono. com meus finais de semana virados do avesso, minhas prioridades mudadas a cada dia. um gestor que eu conheço tão pouco e já não reconheço.

eu questiono o meu medo, o motivo de eu ficar tanto tempo olhando o e-mail em que eu me posiciono sem coragem de enviar.

hora de andar, de novo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

eu vim antes pra terapia porque aqui, na sala de espera, eu tenho paz e silêncio. eu coloco os pensamentos em ordem, e me distraio jogando candy crush e pensando nas compras do supermercado de mais tarde, onde eu vou comprar ingredientes prum bloody mary. porque tomate temperado com vodka em acalma a cabeça.

eu quero outro final de semana porque eu trabalhei nesse, e esse tempo ninguém me devolve, nunca mais. meu tempo, esse. e teve mais, no final de semana anterior, aquele do feriado de são paulo, eu também trabalhei. e depois, quando era hora de voltar pro escritório, eu tive tanto, mas tanto aborrecimento que os 3 dias úteis de uma semana supostamente curta viraram uma eternidade, se arrastando a cada hora, a cada minuto. e quando houve tempo pra descansar, porque era sábado novamente, eu estava no escritório, roubando batatas fritas dos meninos do desenvolvimento e querendo estar em casa olhando pro teto. e aí, quando eu cheguei no escritório nessa segunda-feira, cansada e desiludida depois de tanto desassossego, o que eu escutei foi o chefão dizer que tinha mudado de ideia, e que seguiríamos com o caminho dos gringos, aquela briga que eu ganhei há 5 semanas atrás. e eu escutei quieta ele dizer que nós tinhamos estourado o prazo, e que agora não dava mais tempo. e todo o prazo estourado não era meu, era do chefo, que ia e vinha e mudava de ideia o tempo todo. e agora a culpa era minha e todo o trabalho feito nas últimas 5 semanas ia ficar pra depois. e que não é trabalho perdido, veja bem. ele será aproveitado. todo o trabalho daquele final de semana de feriado, que eu podia ter aproveitado com dias ensolarados fora de casa. e eu fico pensando que quando eu for CEO de uma empresa, qualquer uma, eu vou ter culhão de manter as minhas decisões.

porque tem sido difícil me adaptar. e eu fico querendo procurar emprego de novo, e eu fico querendo ter passado na entrevista de sexta. eu sei que eu fui bem, a rh me disse que ia encaminhar meu curriculo pro chefão de lá. e aí eu penso na novela de adaptação, de começar do zero, me acostumar com os horários, com o trabalho, com as ferramentas, com as pessoas. meodeos. as pessoas.


e eu fico querendo férias, descanso, silêncio absoluto enquanto eu fico de olhos fechados tentando não pensar em nada. tipo aqui, na sala de espera da terapia. onde eu tenho paz e silêncio, antes de encarar meus demônios na sala de portas fechadas.

não é só ter muito trabalho. eu já tive muito trabalho antes, eu lido com isso.

é lidar com um dementador no seu pescoço o dia inteiro, mandando emails passivo agressivos, insinuando que o trabalho não está sendo feito direito. as gargalhadas ecoando pelos corredores, as salas trancadas com ela gesticulando dramática e eu com a certeza de que ela está reclamando de mim e da minha equipe. é o pedido de demissão da confidente querida, porque não aguentava mais fazer parte do circo armado, e ver a rainha de copas dizendo que tudo, cada detalhe, desde então, é culpa dela. ela que há 3 semanas havia sido promovida por mérito. e que agora é responsável por tudo que dá errado.

é ver o chefo dando razão a ela, pedindo desculpas em e-mails públicos em assuntos que eles discordaram e que, agora, ele concordava com ela. e ver nenhum e-mail de desculpas, ainda que pessoal, pro esporro que eu e a minha equipe tomamos na semana passada, por um erro que ela tinha cometido.

tem dias que é mais difícil. eu estou realmente no meu limite, porque eu acho que o relacionamento deles começou a atrapalhar o meu trabalho. e é muito ruim trabalhar com uma pessoa que não entende que o objetivo é comum, e gasta energia atirando em você. espírito de porco no lugar de espírito de equipe.</div>

segunda-feira, 8 de julho de 2013

acabei de lembrar

teve esse dia que a rainha me puxou na mesa dela, toda amiguinha. me disse que estava quase convencendo um dos meninos de TI a aceitar virar gerente. e que era pra eu ajudar ela na missão, porque com o cara de TI, que é diretor, demitido, ia sobrar dinheiro pra dar aumento pra nós duas.

JURO.

rainha de copas ataca novamente

estamos nós, eu e a minha equipe de meninas extremamente fofas, sentadas láááá do outro lado do salão, né? um clima bom, de gente feliz, praticando amizade. de vez em quando, a risada da rainha ecoa pelos corredores. a mesma rainha que reclamou do nosso barulho. pois é.

na nossa mesa senta também ally mcbeal, a responsável pelo jurídico. ela é fofa, eu sou fofa, estamos nos aproximando. aos poucos, eu comecei a notar que ela virava os olhos sempre que a rainha passava. ALIADA DETECTED. comecei a jogar verde e descobri que ela também não vai com a cara da maluca. bem no meio dessa descoberta extraordinária, chega a rainha, arrastando o chefo pelo braço.

começa a apontar para a nossa mesa, e redistribuir TODOS os lugares. fulana vai sentar ali, cicrano vai pra perto de mim, a garota e a equipe dela ficam do meu lado, bla bla bla.

abre parêntesis
rainha de copas BURRA TODA VIDA, quando decidiu há um mês atrás que as nossas "conversinhas eram insuportáveis" e remanejou a gente pra bem longe, não se deu conta que a nossa mesa antiga, agora vazia, daria lugar a equipe que ela mais odeia no mundo, a equipe de eventos. eles sim barulhentos, mas ainda assim menos que ela e a equipe dela. naturalmente as conversas se encaminharam para a mudança deles pra pertinho dela, assim, bem do ladinho. junte-se a isso aquele prazer que ela tinha em olhar bem pras telas dos nossos computadores, e que agora ela não pode mais fazer.
pronto. RAINHA COMETEU UM ERRO. e quer que a gente volte lá pro ladinho dela.
fecha parêntesis

não, néam? volto não. brigada, tia.

entrei num call e perdi a melhor discussão da vida, prontamente descrita pela japonesa favorita.

aparentemente, ela voltou lá pra mesa e disse pra ally mcbeal que o pessoal de eventos devia se sentar ali do lado dela. ally disse que não queria, que eles eram muito barulhentos, e que "quietinhos deviam se sentar com quietinhos, e barulhentos com barulhentos", e que eles tinham que se sentar perto dela e da equipe dela, que era barulhenta.

rainha ficou vermelha. "mas você está dizendo que eu sou barulheeeeeenta? agora você estááá me ofendeeeeeeendo."

ally continuou: "foi o próprio chefo, quando trouxe as meninas pra cá, que me disse que elas eram mais quietas e que achava melhor elas se sentarem perto de mim, porque funcionaria melhor."

rainha e ally brigaram, e eu nem estava lá pra assistir. mais tarde, depois da história toda, o chefo tava na minha mesa validando uma coisas, e ally disse pra ele. "chefo, você não pode tirar as meninas daqui, porque a gente trabalha super bem juntas, e elas não fazem barulho."

eu olhei pra ele (ainda sem entender, só fui saber da briga depois), e disse que estava ótema ali, e que não ia trocar de lugar de novo não, que não tinha o menor cabimento isso. ele olhou pra mim aborrecido e falou. "a rainha está louca porque não quer o pessoal de eventos perto dela, mas ninguém vai trocar de lugar coisíssima nenhuma."

enquanto isso, sentada lá no trono mesa dela, ela desenhava numa folha branca de papel um desenho boniiiiito, colorido com lápis de cor, reorganizando as cadeiras de todo mundo do escritório. eu vi esse desenho na sala do chefo, jogado num canto da mesa, bem mais tarde.

é ou não é um imenso jardim de infância, essa vida?

E TEM MAIS

é muita história atrasada. eu preciso escrever todas pra conseguir escrever as próximas com tudo devidamente contextualizado.

teve o dia que eu fui na sala do chefo e peguei ele em flagrante, guardando a bolsa listrada da rainha de copas dentro de mochila dele.

ficamos em silêncio, nos encarando, ele sabendo que eu sabia que aquela era a bolsa dela.

na mochila dele.

desconversei, mas agora *acho* que ele já sabe que eu sei.

feedback, O RETORNO

Dessa vez era feedback duplo. o chefo escapou no dia anterior, mas eu estava à espreita. apareci na sala dele e disse que precisávamos conversar.

ele falou da minha falta de reação quando o gringo me tratou mal. eu concordei, mas disse que ele podia - vendo que eu estava fragilizada - me apoiar, considerando que eu era equipe dele. e que eu jamais deixaria a minha equipe passar por algo assim sem me posicionar.

eu falei dos e-mails, dos dois. que não gostava de retaliações públicas. que ele não podia dizer que estávamos parados porque ele, mais do que ninguém, sabia tudo o que eu e a equipe fazíamos. ele concordou, amenizou dizendo que era só a sensação pra quem não sabia, e tals. eu falei do segundo e-mail, perguntei se ele estava insatisfeito com o meu trabalho, e ele disse que não, de maneira alguma. eu disse que vinha trabalhando consorme instruções dele. 80% no projeto novo (com os gringos malcriados), 20% no resto. e que esses 20% se consumiam em testar um site novo, não em navegar em um site velho, prestes a ser desligado. ele concordou. 

daí eu botei na conta da rainha de copas. disse que se ela tinha o poder de publicar coisas, que era responsabilidade DELA validar. não minha. e que se estava quebrado, eu e a minha equipe não tinhamos responsabilidade nisso. aproveitei pra dizer que eu trabalho muito bem em equipe, e que já peguei erros da equipe dela diversas vezes, e que todas as vezes eu fui na mesa dela e corrigimos juntas. sem ninguém saber. e que ela sempre que via um erro preferia ir na sala dele e falar que a gente não fazia nada direito, ao invés de concentrar esforços em resolver o problema.

ele calou. mas entendeu. 

no fim, ficou tudo bem. ele amansou comigo, eu estou amansando com ele. acho que mais uns dias, as coisas voltam ao normal.

a semana passada começou estranha

e o chefo me disse que precisávamos conversar. pontuou que esperava que eu tivesse adiantado umas coisas na sexta feira seguinte ao call, e eu não tinha feito. e ele se perguntava o quanto essa situação com os gringos estava afetando o meu trabalho.

eu nem sei porque eu não adiantei as tais coisas. eu estava afetada, fato, mas tinha priorizado outras coisas. deixei claro que resolveria isso rapidinho, e a conversa ficou pra depois.

na segunda de tarde, a rainha de copas mandou um email, dizendo que um concorrente tinha lançado funcionalidades novas, e que achava muito ruim pra gente que eles inovassem, e nós não. antes mesmo que eu absovesse aquela palhaçada, resposta do chefo ao e-mail, concordando com ela e dizendo que tinha a impressão de que estávamos parados.

ora bolas, parados. ele entrou um ano antes de mim e NADA foi feito. eu entrei em novembro e tem dois projetos grandes a pleno vapor, mais um zilhão de microprojetos desenhados, esperando a hora de serem desenvolvidos. eu peguei as coisas despencando, e realmente não dá pra inovar quando você não tem estrutura. estou construindo a estrutura. eu ensaiei uma resposta ao e-mail, mas fui aconselhada pelo cara de ti a não me expor. guardei esse assunto pra quando finalmente fossemos conversar sobre a história dos gringos e o quanto isso estaria afetando o meu trabalho".

passaram-se uns dois dias estranhos, e na quarta-feira a rainha de copas estava trancada na sala dele. no meio da tarde, com ela lá dentro, ele manda um email-esporro, copiando toda a equipe, dizendo que tinha um menu quebrado no site e que era absurdo que ele precisasse notar isso, que nós não tivéssemos visto nada antes. escreveu que aquilo era falta de gestão e planejamento. eu realmente não tinha visto, e corri pro cara de TI. com a rainha de copas louca, acabamos nos reaproximando. nada como um inimigo em comum pra botar as coisas em perspectiva. ele foi buscar no sistema o histórico de alterações e descobriu que aquele problema que o chefo reclamou era culpa de quem?

da rainha de copas. ela tinha feito a alteração, ela não tinha ido checar como as coisas estavam no site depois de alteradas. "adoro logs", ele disse. nada como saber exatamente quem fez alguma coisa. eu pedi que ele respondesse ~a todos~ o mesmo e-mail, esclarecendo as coisas. antes que ele fizesse isso, eu respondi o email do chefo só pra ele, dizendo que precisávamos ter uma conversa. o e-mail do cara de ti botando a culpa na rainha chegou rápido, e a partir daí o assunto morreu.

ela respondeu se fazendo de desentendida, ai, mas eu não sabiiiiiiiiiia, como faz pra isso não aconteceeeer?

conte-me outra.

semaninha infernal, e ainda era quarta-feira. susan miller tinha dito que eu precisava sobreviver a julho até o dia 5, e que depois as coisas ficariam incríveis, fantásticas, extraordinárias.

toca meu telefone. headhunter querendo marcar minha conversa com a rh da outra empresa. :)

volto lá semana que vem.

o dia seguinte

no dia seguinte eu tinha a entrevista. pausa para eu dizer novamente o meu estado de choque ao ver a pessoa que eu me transformo nesses momentos. eu precisava dessa confiança doze horas antes, no call dos infernos.

a conversa foi longa, e muito boa. o headhunter percebeu que eu estava feliz no trabalho - e eu de fato estou. me questionou se eu ia sair mesmo, tentando buscar alguma cumplicidade na minha resposta. eu disse que sim, estava feliz. mas que eu era pragmática com a minha carreira, e eu não gostava de perder tempo. e que eu sairia dependendo da proposta.

e aí ele disse que me encaminharia para a empresa, e que teria ainda umas três entrevistas pela frente, sendo a última com o dono do castelo, dessas figuras que a gente conhece da revista exame. 

passei, né? ;-)

antes de me liberar, ele tinha uma última pergunta. eu consideraria me mudar para san francisco?

eu assistia party of five, foi o que eu respondi. eu moraria num sobrado no alto de uma ladeira e iria para o trabalho de bonde. e sorri.




o call dos infernos

Há 3 semanas, quando os gringos estavam aqui, eu ganhei uma briga importante. Havia essa agenda compartilhada para a semana, e eu sabia que a quinta feira seria o dia mais importante. Porque estaríamos discutindo a visão do projeto, e era nisso que eu brigava com o gringo malcriado, o mesmo das discussões horriveis de março. A gente vinha seguindo pelo caminho dele, por uma questão de prazo, mas o resultado todo era tão horrível que sempre que o chefo ou o chefão passavam por perto, eu demonstrava o quanto eu estava horrorizada com o caminho escolhido. Depois de alinhar internamente que era melhor o nosso caminho, eu tinha que dizer pros gringos pararem as máquinas, repensarem o caminho e seguirem na direção que eu apontava.

A reunião começou sendo um desastre. A mesma barreira de idioma que eu sofro afeta os chefos. É difícil levar uma discussão num idioma que, por melhor que você domine, não é o idioma em que você pensa. Os gringos iam levando a discussão prum lado desastroso, e eu, muda, assistia os chefos quase que concordando. Eu quase não acreditava no que estava assistindo, e comecei a pensar que aquele caminho quem não topava era eu. A discussão avançava e eu fui ficando puta da vida. Raiva mesmo, sabe? Comecei a pensar em pedir demissão. Silenciosamente pensava nos meus próximos passos. Atualizar linkedin, contatar os queridos. Eu é que não estaria ali pra seguir com aquele plano monstruoso.

A raiva era tanta que eu deixei de me importar. Eu podia falar o que eu quisesse, porque não fazia questão de estar ali e seguir com aquilo. E aí eu falei. Em português mesmo. Eu estava brava demais pra traduzir qualquer coisa. Olhei pro chefão e disse que o que eles estavam propondo era absurdo. Pontuei com umas questões de mercado aprendidas lá em 2007, quando eu fiz meu mba. Os gringos olharam pra mim e eu continuei, em inglês, dizendo que o trabalho que eles fizeram não era o que a gente acreditava, e que a gente queria fazer do nosso jeito. O gringo malcriado perguntou. Mas o que tem de errado com o nosso trabalhooo? E eu comecei a enumerar os diversos problemas, cada um deles. Encerrei dizendo que eu tinha quase 10 anos nesse mercado, e que eu entendia melhor o nosso público do que eles. 

A discussão mudou a direção e veio para o meu lado. Os chefos seguiram a partir dali, e no final ficou decidido o que eu esperava. Os gringos ficaram putos, eu fiquei feliz e com um mundo de trabalho pra colocar em ordem.

Desde então, o gringo malcriado parou de falar comigo.

Na quinta feira da semana retrasada, tínhamos o primeiro call pra falar do projeto. E foi um dos piores dias da minha vida. O gringo me cortava, me corrigia, me ignorava. O chefo assistia tudo, e não fazia nada pra me defender. Eu fiquei puta, só queria que aquilo acabasse. No final, o gringo passou de todos os limites. Eu questionei uma coisa e ele basicamente riu, gargalhou com a equipe dele, debochando. Disse que não tinha a menor importância o que eu tinha perguntado, e que ele tinha feito outra pergunta. De novo o tom professoral que eu tanto odeio. Foi tudo tão rápido que eu não consegui responder. Olhei pro chefo, esperando que ele colocasse um ponto final em todo aquele absurdo e desrespeito. E ele fingiu que nada tinha acontecido. Daí eu fiquei puta com ele, me sentindo desprotegida.

A reunião acabou e eu estava segurando o choro. Enquanto enrolava os fios do carregador do meu computador, ele disse, tentando me acalmar, que achava que os gringos eram escrotos comigo, mas que eu devia relevar.

Relevar.

Eu olhei pra ele e disse que aquele tinha sido o maior desrespeito que eu já havia passado em toda a minha vida profissional, e que era inaceitável. E que ele tinha um problema pra resolver. 

Ele entrou em reunião de novo, eu fui pra minha mesa e chorei.