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quarta-feira, 8 de junho de 2016

eu não sei muito bem como a minha cabeça opera. eu passei semanas pensando nos filhos que eu não teria. porque o casamento acabou. porque o casamento que só existiu na minha cabeça acabou. porque casamento nenhum acaba como se fosse um caso de dois ou três meses, e eu já processei essa história demasiadamente. e eu não sei por que diabos esse assunto voltou a me doer, precisamente na questão dos filhos, um ano e meio depois. os filhos que deixaram de existir junto com todo o resto. que talvez também só tenham existido na minha cabeça. 

e bem no meio desse novelo que por medo, desespero, you name it, eu não ousei desfiar nem mesmo no divã, porque sabe se lá o que vem disso, sabe se lá que rumo minha vida toma, ou perde de vez, eu me vejo às voltas com a informação de que não, esses bebês não só não deixaram de existir, como eles inclusive não precisam e nunca precisaram de mim para vir ao mundo. o primeiro deles, inclusive, já está dando forma para a barriga de outra mãe. a dona da aliança que nunca foi minha.

e é isso. a vida. mais uma vez.

eu choro no banheiro, na sala de reunião, na yoga, no telefone com a amiga. que chora junto. e que entende que não é de amor que a gente fala, aqui. não é de coração partido. não mais. eu choro a história perdida, eu choro todas as coisas que eu não posso dividir, tudo o que se perdeu, tudo o que não volta, nunca mais, nunca mais. eu estou falando é de mim. porque os meus filhos existiram vivos e nítidos apenas uma vez, e eles não se quebraram em dois mil e quatorze junto comigo. eles vieram se esfarelando ao longo do tempo enquanto eu fazia um esforço sobre-humano pra me refazer. até agora. 

it's gonna be gone soon, disse clementine para joel, no filme que eu decorei cada fala, e que a gente assistiu tantas vezes. a rachadura gigante embaixo dos dois. eu achava que eu nunca ia entender o desespero para se apagar alguém completamente da memória. tendo sido apagada, ressentida como joel, eu entendo. eu lamento profundamente que aquilo tudo seja fantasia e não realidade.

de vez em quando, muito de vez em quando, eu ainda tenho a impressão de que estou sonhando e essa realidade toda nunca aconteceu.

Um comentário:

  1. Cedilha, vem dar uma noticia pra nos! Saudades das tuas travessuras :)

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