Páginas

domingo, 10 de maio de 2015

coração de mosaico

consegui olhar de novo pra você, hoje. passei pelas suas fotos, a sua jornada, como você gosta de dizer. você continua bonito, e parece feliz. senti uma pontinha de dor, mas nada que me desesperasse. é só aquela tristezinha do que um dia foi feliz e acabou. agora eu sei. agora eu sei que você precisava se salvar dessa vida que te prendia. a mesma vida que me libertou, e por isso não, nunca nunca que eu teria te seguido. reforço cada uma das minhas escolhas quando ando pela casa que um dia foi nossa, mas que agora é só minha. a parede que a gente pintou, o relógio que até hoje não existe na parede da cozinha depois que você quebrou num sábado distraído. algumas coisas jamais serão repostas. outras sim. deu saudades de você me chamando de pastel, ou cantando aquelas músicas que só existiam na sua cabeça. a nossa história também foi uma jornada. foi a jornada que eu precisava pra entender o que eu queria pra mim e pra minha vida. todas aquelas bobagens que eu dava valor e você não ainda seguem comigo como as coisas mais importantes do mundo. e eu fico feliz que elas sejam minhas. talvez você seja do mundo. eu não. eu crio raízes, mas não nesse asfalto duro de são paulo, como você chegou a dizer. minhas raízes são outras, e eu finco feliz numa nova história de amor. demorou meses até eu ver que você estava certo, e eu errada. eu teria ficado com você pra sempre. e teria sido feliz, feliz. mas também tinha essa outra vida, e ela é tão absurdamente mais intensa do que a gente foi. e eu jamais saberia, porque era preciso ter tido o meu coração partido em um milhão de caquinhos pra colar de novo, tipo um mosaico, um desenho reconstruído. pra finalmente entender. que não era a gente. não era você. não era eu.

fica bem. seja feliz. eu estou sendo.

c.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

#1 

em 2010 eu ainda era apaixonada pelo covinhas. ele não era apaixonado por mim, vivia entre idas e vindas com a namorada japonesa. a cada término eu me enchia de esperanças. éramos amigos. saíamos juntos. fomos a um aniversário de uma amiga em comum e eu vi quando ele colocou os olhos em uma menina miúda num cantinho da mesa. ela rabiscava em guardanapos. foram apresentados enquanto eu observava, de longe. eu sabia. eu soube imediatamente que ali, naquele momento, todas as minhas chances já quase inexistentes se extinguiram de vez. meu coração escorreu e foi parar no pé, enquanto à distância eu acompanhava os sorrisos e olhares. eles foram morar juntos um mês depois, e são felizes até hoje. eu sempre lembro dessa menina, e sempre pensei que, na vida, eu não seria arrebatada, e muito menos arrebataria ninguém. 

#2 

eu sonhei que nada estava acontecendo. no sonho, minha vida era como antes, e eu pensava no menino da motocicleta e olhos rasgados como um sonho do qual eu acabava de acordar. sabe aquela sensação de acordar de um sonho bom? eu me sentia assim, meio decepcionada com a descoberta. acordei e ele dormia ao meu lado. era realidade. sonhei que estava sonhando. 

#3 

existe uma ex namorada, e eu fico pensando como ela vai reagir quando souber que eu existo. ela ainda liga pra ele, ainda manda mensagens de madrugada. eu fico pensando que eu sou a menina do bar do covinhas, que chegou criando uma nova história, uma reviravolta, jogando os planos de outra pessoa no chão. será que sou eu no lugar da menina, arrebatando e arrebatada, enquanto alguém tem o coração partido?

terça-feira, 28 de abril de 2015

sobre começos

experimentar uma nova pessoa tem sido agridoce. todas as coisas que eu não sei, todas as coisas que ele não sabe, toda a vontade de ficar junto versus o que é normal pra quem se conhece há tão pouco tempo. ainda não é a hora em que a gente desfia os medos e inseguranças. eu quero ser leve e discutir amenidades, se eu prefiro café com açúcar e ele café puro, ou se cachorros são mais legais do que gatos. nós dois adoramos sorvete. ele me conta as histórias e foram tantas vidas em uma só. eu fico pensando que, fosse eu um pouquinho mais racional, não estaria com alguém tão livre, tão ao sabor dos acontecimentos. eu sou presa em regras. e o fascinante nas histórias que eu ouço é justamente a falta delas. os planos já aparecem, mas ainda é cedo, sabemos disso. eu tinha toda uma vida planejada, eu tinha o rosto dos meus filhos desenhado na memória. eu fico imaginando se seriam as mesmas crianças, trocando o cabelo claro e cacheado pelo escuro e liso, ou os olhos verdes pelos olhos castanhos, amendoados e pequenos. começo a gostar da ideia. começo a ter medo de dar errado. é tudo tão incrível quando as portas estão trancadas e o mundo lá fora não entra. é tudo tão adulto e tão diferente de tudo o que eu conhecia até então. é tudo tão forte, e ao mesmo tempo tão delicado e frágil.

já não existe mais mágoa ou raiva. existe a vida, essa coisa meio louca e incrível, mostrando que a gente não sabe é nada. que um mundo acaba para que outro novo se crie. e, meodeos, que mundo feliz esse que eu ando vivendo.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

but if you try sometimes, you just might find you get what you need

eu já não escrevo pra ele. 

eu escrevia pra mim, depois pra ele, depois não escrevia por causa dele, depois por causa de mim. 

hoje eu escrevo por mim. pra mim.

o tempo todo eu traço um paralelo entre a vida que teria sido, que estaria sendo, e a vida que é, de fato. demorou quase cinco meses.

o plano b me trouxe de volta para o quadro em branco, podendo escolher qualquer coisa. eu escolhi um trabalho novo, recomeçar do zero. o plano b me trouxe um reencontro com a minha imagem refletida no espelho. voltaram os batons coloridos e os shorts com meia calça. o plano b me trouxe paris e novos planos de novas viagens. eu preenchi os espaços da casa vazia e já ocupo a cama inteira de novo. voltaram os amigos e os bares, a casa cheia de queridos, o tapete manchado e eu nem me importando.

eu já tenho a minha resposta. 

leva entre quatro e cinco meses pra esquecer até o maior amor do mundo. a gente supera. preenche os espaços. o plano b pode não ter sido escolhido, mas pode surpreender. pode até trazer o frio na barriga de volta. trouxe um moço divertido que tem óculos com aros grossos e dirige uma motocicleta, vejam só. o plano b trouxe de volta as primeiras vezes. os primeiros beijos. as poucas horas de sono e a ressaca feliz do dia seguinte. 

eu queria poder dizer pra mim mesma, há cinco meses atrás, que a vida se acerta. que nem sempre a gente escolhe. mas que até nisso a gente se encontra. e sim, fica tudo bem.

sábado, 7 de março de 2015

quanto tempo leva?

Quando meu mundo caiu, eu comecei a cutucar as cutículas dos polegares das mãos. Eu apenas cutucava, repetidamente. os dedos ficavam vermelhos e irritados, mas eu não conseguia parar. Eu já perguntava para as pessoas a mesma pergunta que eu ainda faço hoje, três meses e meio depois. Quanto tempo leva? 

Acho que com isso eu alterei o crescimento das minhas unhas. Eventualmente, quando cresceram um pouco, eu percebi que havia uma ondulação nelas. A unha do polegar não crescia lisinha. Perto da cutícula havia uma depressão, o inicinho da unha era fundo, e isso fazia um degrau até a parte seguinte, que era a unha normal de quando estava tudo bem e eu não me machucava sem perceber. Quanto tempo leva? Eu continuava perguntando, com as mãos levemente estragadas e minha mãe insistindo que eu passasse um esmalte. 

Começou em novembro. Eu olho pra trás e tudo parece meio nublado. Não sei a ordem dos acontecimentos, apaguei da memória conversas inteiras com amigos queridos. Não lembro de coisas que eu disse. Lembro das perguntas, não lembro das respostas. Quanto tempo leva? Se me dissessem naquele 22 de novembro que levava mais de 3 meses, como eu sei agora, acho que eu teria ficado menos desesperada. Eu preciso de dados, de informações, de um infográfico que me guie pelas fases do luto pós separação. Eu só queria saber ao certo quanto tempo leva. Três meses eu já sei que não é, porque eu vivi esses três meses e ainda estou com o coração irremediavelmente partido.

Existe melhora. Eu já não passo todo o tempo chorando, mas eu ainda penso em tudo o que foi, em tudo o que deixou de ser. E eu ainda penso nele, sim. Não na pessoa que ele é hoje. Eu pouco me pergunto o que ele anda fazendo. Eu pouco me pergunto se ele sente saudades. Eu sinto saudades, mas não dessa pessoa de agora, que anda por aí como se nada tivesse acontecido. Eu sinto falta de quem ele foi, quando nada disso parecia que ia acontecer, nunca. Sinto falta dele fazendo pão na cozinha, ou me pedindo pra dormir mais cedo. Quanto tempo leva? Eu fico bem 60% do tempo, será que já dá pra contar? São os outros 40% que me atropelam de repente numa quarta feira ensolarada. Que me fazem desmarcar um date com um menino bonito e aparentemente muito legal, mas que eu não consigo nem cogitar conhecer melhor. São os 40% que me fazem esconder no banheiro no meio do expediente e chorar. Será que mais três meses e eu vou estar ok?

Eu acompanho o crescimento das unhas. O desnível provocado pelos machucados que eu fiz está agora na metade. Quase metade. A cada vez que eu escondo essa falha com esmalte, eu meço mais um pouquinho. Quanto tempo falta? Acho que em mais três, quatro meses, o desnível terá chegado na outra extremidade e eu poderei finalmente cortar fora a lembrança. Eu espero secretamente que quando esse momento chegar, eu já esteja inteira, assim como as unhas.

Eu conto o tempo ali.

domingo, 16 de novembro de 2014

eu não consigo escrever

é isso. sequei. espera, não. não é verdade. a verdade é que ando inundada, transbordada, e tudo que tento colocar em palavras me pesa. dá medo, como se ao escrever eu tornasse real, e precisasse então encarar, olhar nos olhos da besta. eu ando com tanto medo, os olhos ardem segurando as lágrimas. sempre fui de falar, agora eu calo. tenho medo de macular o que existe, o que se acredita existir. tenho medo dos olhares. não posso encarar de volta, não consigo, estou alagada, preciso não desmoronar. falo de amenidades, com amenidades eu lido.

sábado, 18 de outubro de 2014

os dias se atropelaram e eu venho agradecendo por isso. acordo segunda, respiro e de repente é sexta. facetimes perdidos na varanda da firma, com o ar seco de são paulo ao fundo. discuto política na terapia. estoco água. de repente é sábado e eu não sei o que fazer com o meu dia. me peguei pensando que o fim de semana é só um intervalo que separa uma semana da outra. não sei como aproveitar tanto tempo livre. vejo seriados, roo as unhas.

***

mas um aniversário. outro ano inteirinho se passou, e eu me dou conta de que 2014 vai ser o primeiro aniversário em 3 anos que eu passo sem estar desesperada por causa de trabalho. 2011 eu tinha acabado de aceitar a ~nova posição~cheia de promessas e com salário mais gordo. estava começando. 2012 eu estava calada e sofrida, achando que tinha cometido um grande erro trocando a firma colorida por wonderland. aviso prévio, perspectiva nenhuma. aniversário quietinha em casa, só namorado por perto. 2013 eu estava de novo desempregada, após mil e uma confusões na firma que eu nem nunca dei nome. saturno entrou na minha ~casa das finanças~ em 2012 pra ensinar as tais grandes liçoes que ele suportamente ensina. virei dessas que estuda astrologia. comecei a torcer pela saída do taskmaster motherfucker, que aparentemente já começou. ele vai embora dia 23 de dezembro, E NÓS NEM ESTAMOS FAZENDO CONTAGEM REGRESSIVA. claro que estamos.

fato é que estamos aí, 2014, 35 anos em dois dias. emprego estável, salário legal, namorado, amigos. é isso, né?